viernes, 2 de noviembre de 2007

O Homem Nu

Ao acordar, disse para a mulher:
- Escuta, minha filha: hoje é dia de pagar a prestação da televisão, vem aí o sujeito com a conta, na certa. Mas acontece que ontem eu não trouxe dinheiro da cidade, estou a nenhum.
- Explique isso ao homem -- ponderou a mulher.
- Não gosto dessas coisas. Dá um ar de vigarice, gosto de cumprir rigorosamente as minhas obrigações. Escuta: quando ele vier a gente fica quieto aqui dentro, não faz barulho, para ele pensar que não tem ninguém. Deixa ele bater até cansar -- amanhã eu pago.
Pouco depois, tendo despido o pijama, dirigiu-se ao banheiro para tomar um banho, mas a mulher já se trancara lá dentro. Enquanto esperava, resolveu fazer um café. Pôs a água a ferver e abriu a porta de serviço para apanhar o pão. Como estivesse completamente nu, olhou com cautela para um lado e para outro antes de arriscar-se a dar dois passos até o embrulhinho deixado pelo padeiro sobre o mármore do parapeito. Ainda era muito cedo, não poderia aparecer ninguém. Mal seus dedos, porém, tocavam o pão, a porta atrás de si fechou-se com estrondo, impulsionada pelo vento.
Aterrorizado, precipitou-se até a campainha e, depois de tocá-la, ficou à espera, olhando ansiosamente ao redor. Ouviu lá dentro o ruído da água do chuveiro interromper-se de súbito, mas ninguém veio abrir. Na certa a mulher pensava que já era o sujeito da televisão. Bateu com o nó dos dedos:
- Maria! Abre aí, Maria. Sou eu - chamou, em voz baixa.
Quanto mais batia, mais silêncio fazia lá dentro.
Enquanto isso, ouvia lá embaixo a porta do elevador fechar-se, viu o ponteiro subir lentamente os andares... Desta vez, era o homem da televisão!
Não era. Refugiado no lanço da escada entre os andares, esperou que o elevador passasse, e voltou para a porta de seu apartamento, sempre a segurar nas mãos nervosas o embrulho de pão:
- Maria, por favor! Sou eu!
Desta vez não teve tempo de insistir: ouviu passos na escada, lentos, regulares, vindos lá de baixo... Tomado de pânico, olhou ao redor, fazendo uma pirueta, e assim despido, embrulho na mão, parecia executar um ballet grotesco e mal ensaiado. Os passos na escada se aproximavam, e ele sem onde se esconder. Correu para o elevador, apertou o botão. Foi o tempo de abrir a porta e entrar, e a empregada passava, vagarosa, começando a subida de mais um lanço de escada. Ele respirou aliviado, enxugando o suor da testa com o embrulho do pão.
Mas eis que a porta interna do elevador se fecha e ele começa a descer.
- Ah, isso é que não! - fez o homem nu, sobressaltado.
E agora? Alguém lá embaixo abriria a porta do elevador e daria com ele ali, em pêlo, podia mesmo ser algum vizinho conhecido... Percebeu, desorientado, que estava sendo levado cada vez para mais longe de seu apartamento, começava a viver um verdadeiro pesadelo de Kafka, instaurava-se naquele momento o mais autêntico e desvairado Regime do Terror!
- Isso é que não - repetiu, furioso.
Agarrou-se à porta do elevador e abriu-a com força entre os andares, obrigando-o a parar. Respirou fundo, fechando os olhos, para ter a momentânea ilusão de que sonhava. Depois experimentou apertar o botão do seu andar. Lá embaixo continuavam a chamar o elevador. Antes de mais nada: "Emergência: parar". Muito bem. E agora? Iria subir ou descer? Com cautela desligou a parada de emergência, largou a porta, enquanto insistia em fazer o elevador subir. O elevador subiu.
- Maria! Abre esta porta! - gritava, desta vez esmurrando a porta, já sem nenhuma cautela. Ouviu que outra porta se abria atrás de si.
Voltou-se, acuado, apoiando o traseiro no batente e tentando inutilmente cobrir-se com o embrulho de pão. Era a velha do apartamento vizinho:
- Bom dia, minha senhora - disse ele, confuso. - Imagine que eu...
A velha, estarrecida, atirou os braços para cima, soltou um grito:
- Valha-me Deus! O padeiro está nu!
E correu ao telefone para chamar a radiopatrulha:
- Tem um homem pelado aqui na porta!
Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava:
- É um tarado!
- Olha, que horror!
- Não olha não! Já pra dentro, minha filha!
Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta para ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma lá fora, bateram na porta.
- Deve ser a polícia - disse ele, ainda ofegante, indo abrir.
Não era: era o cobrador da televisão.


Esta é uma das crônicas mais famosas do grande escritor mineiro Fernando Sabino. Extraída do livro de mesmo nome, Editora do Autor - RJ /



Este texto será usado na festa de encerramento do ano. Todos participarao sob a direçao da Isabel.

7 comentarios:

Priscilla dijo...

Eu gostei muito desta crônica de Fernando Sabino, o texto é muito engraçado e reflete situações da vida cotidiana cheias de humor. É verdade que algumas vezes nao queremos enfrentar situações onde nossa imagem possa ficar mau, mas é pior enganar-se a si mesmo e terminar envolvido numa tremenda confusão. Alem disso, eu acho que por qualquer razão que seja, encontrar um homem nu, sempre será uma situação incômoda para qualquer pessoa, principalmente se está em frente da nossa porta!

Claudio dijo...

Fazer uma atividade juntos é uma ideia genial, além do que o texto é verdadeiramente engraçado.
Entao, vamos trabalhar com a nossa distinta direitora Isabel e conseguir uma atuaçao muito legal. Vamos lá!

Anónimo dijo...

Que ótimo que vocês tenham gostado do texto e que estejam animados para trabalhar na apresentaçao do mesmo.
Beijos
cristina

M@rce dijo...

Achei a história muito engraçada! quase sempre as pessoas que improvisam, ainda que fora uma mentira piedosa, da mesma forma tem uma ensinadela, neste caso o homem ficou pelado fora de seu departamento, passou uma boa vergonha à frente de seus vezinhos y deviu enfrentar o homem da televisão.
obrigada, seu blog é bacana!
beijos

Anónimo dijo...

Que bom que você tenha gostado do blog. Obrigada.
Volte sempre!
Cristina

Edinho Poscidonio dijo...

Cristina, seu blog; F A N T � S T I C O!!!!!!!!!!!

E pior que correr do homem da televis�o, s� mesmo ser pego com as cal�as na m�o - ou o p�o.

Anónimo dijo...

Edinho
Obrigada pela visita.
Realmente ficar nu no corredor e com o embrulho do pao é uma situaçao constrangedora....
um abraço,
cristina